Memorial em Homenagem às
Vítimas da Covid-19

Sandoval Dornelas de Faria

Sandoval Dornelas de Faria.
Esse era o nome de batismo. Para meus irmãos e para mim, sempre foi simplesmente “papai”. Para minha mãe, “Valico” bastava.

Na vida, há chegadas e partidas. Estamos em constante renovação — são os desígnios do Criador. Pisamos hoje no telhado de amanhã, sem saber ao certo se era a hora. E talvez nunca saibamos. Sempre achamos que poderia ser um pouco mais tarde…

Vindo de um berço simples e humilde, mas sempre honesto, foi isso que nos transmitiu: honestidade. Lavrador de lida dura, lapidou a vida para torná-la mais doce e branda do que realmente era. Ensinou-nos a encarar os desafios de frente, a transformar o limão em limonada.

Com muito trabalho e dedicação, construiu uma família simples, mas na qual nunca nos faltou nada. Atenção e carinho, à sua maneira, sempre foram abundantes. Retribuímos com netos e noras, antes da sua partida.

Além de mamãe, uma de suas paixões era a tradicional carreata de carros de bois, onde gargalhava com os amigos, trocando prosas e risadas.

Na minha trajetória, lembro da chegada dos meus filhos. Acredito que para ele, quando fui eu quem chegou, também tenha sido um momento inesquecível.

Mas a vida continua. E, para seguir adiante, muitas vezes precisamos de desculpas ou de força. Porque a verdade é que nem sempre somos fortes o bastante para momentos tão intensos. Após sua partida, percebemos que todo o amor, carinho e os momentos vividos — alegres ou não — sempre parecerão poucos. E que nada é para sempre.

Quando cheguei neste mundo, éramos dois estranhos. Com o tempo, outros estranhos vieram — meus irmãos — e, juntos, fomos nos conhecendo, convivendo. O amor cresceu entre nós. Passamos a nos amar intensamente, sem constrangimento, apenas seguindo a fé e o ordenamento divino. Amor puro. Inocente. Verdadeiro. Incondicional.

Assim como amamos o Pai celestial, amamos nosso pai terreno. De forma igual. Porque sentimos que, de algum modo, ele ainda segue conosco, amparando-nos e nos ajudando a escolher os melhores caminhos.

Agradeço a Deus pelo pai que nos foi dado. E, eu, como primogênito, sempre me esforcei para não decepcionar, para retribuir a expectativa. Mas só se aprende a ser filho no dia em que se torna pai. É quando se percebe que filhos não vêm com manual de instruções. Educar é uma tarefa árdua. Cada filho é único, diferente, e só Deus pode estruturar o caminho certo.

A família é a primeira sociedade que integramos. E todo aquele que passa por nossas vidas deixa um pouco de si e leva um pouco de nós. Neste mundo, somos todos, em algum sentido, sem teto — sempre esperando um dia voltar para a casa do Pai celestial.

Uberlândia, 29 de abril de 2025

De um filho amável para um pai amado.
Fiquem bem. Fiquem com Deus.
Ronan Alves de Faria

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